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Olhando para trás e para a frente

Por Samuel Pessôa

Na coluna de 10 de janeiro do ano passado, anotei que a hipótese básica de meu cenário para 2016 era que ele dependeria pouco de haver ou não troca de Dilma por Temer. Considerava que nossos problemas estruturais eram graves demais para serem encaminhados rapidamente. Projetei que o crescimento em 2016 seria negativo em 3%, com continuidade do ajuste externo e deficit de transações correntes de US$ 35 bilhões e com inflação de 7,5%. O câmbio de final de ano seria de R$ 4,60 por dólar.

Por Samuel Pessôa (*)

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, em 01/01/2017

Na coluna de 10 de janeiro do ano passado, anotei que a hipótese básica de meu cenário para 2016 era que ele dependeria pouco de haver ou não troca de Dilma por Temer. Considerava que nossos problemas estruturais eram graves demais para serem encaminhados rapidamente.

Projetei que o crescimento em 2016 seria negativo em 3%, com continuidade do ajuste externo e deficit de transações correntes de US$ 35 bilhões e com inflação de 7,5%. O câmbio de final de ano seria de R$ 4,60 por dólar.

A troca de governo mudou as expectativas, e o câmbio se valorizou. Em vez dos R$ 4,60, terminamos o ano com câmbio na casa de R$ 3,20. O câmbio 30% mais valorizado do que o previsto tirou 0,81 ponto percentual da inflação, sugerindo IPCA de 6,7%, em vez dos 7,5% projetados. Boa parte do erro de previsão da inflação -7,5%, no lugar dos 6,3% com que o ano deve fechar- deve-se ao erro no cenário de câmbio.

O ano se encerrará com deficit externo US$ 18 bilhões abaixo do previsto. A queda mais acentuada do investimento, que resultou num cenário de atividade pior do que o previsto (-3,5%, em vez de -3%), explica parte da diferença, mas não toda. A velocidade do ajustamento externo surpreendeu.

A grande incógnita em 2017 será a tramitação do projeto de reforma da Previdência. Se o governo conseguir aprovar tudo que enviou, teremos ao final de 2017 um país muito melhor. O desequilíbrio das contas previdenciárias é de longe nosso maior problema fiscal. Se houver essa surpresa positiva, haverá nova rodada de valorização do câmbio e aceleração dos investimentos, com crescimento mais forte da economia no segundo semestre e um ótimo carregamento estatístico dessa expansão para 2018.

Se Temer conseguir aprovar uns 3/4 do que enviou da reforma da Previdência, o câmbio no final de 2017 será de aproximadamente R$ 3,40 por dólar, com crescimento do PIB de 0,3% na média de 2017 ante a média de 2016. No último trimestre de 2017, ante o trimestre imediatamente anterior, a economia estará rodando a 2,7% ao ano. O carregamento para 2018 será bom, mas não ótimo.

Finalmente, se Temer não conseguir aprovar a reforma da Previdência, ou aprovar versão muito diluída, teremos nova rodada de depreciação da moeda e maior lentidão na retomada da economia. Poderemos ter crescimento negativo em 2017.

Considero mais provável o cenário de que Temer aprove 3/4, aproximadamente, da reforma da Previdência. O crescimento econômico será de 0,3%, a inflação, de 5%, e a Selic no final de ano estará na casa de 10,5%, com câmbio por volta de R$ 3,40 por dólar. Esse é o cenário central, contingente a um sucesso bastante satisfatório, mesmo que não total, na tramitação da reforma da Previdência.

Meu relativo otimismo com relação à aprovação da reforma da Previdência deve-se a dois motivos. Primeiro, há claros sinais de que Temer tem coordenado bastante bem sua base de sustentação. Segundo, a aprovação da reforma também interessa à esquerda. Se a reforma for aprovada, e a esquerda ganhar em 2018, seja com Lula ou com Ciro Gomes, colherá, como ocorreu com Lula, os efeitos benéficos das reformas estruturais feitas pelo grupo político adversário.

A todos, um ótimo 2017.

(*) Samuel Pessôa, formado em física e doutor em economia pela USP, é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.

Link para ler no original: http://bit.ly/2iYR5ko